segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013






Nós três pedalávamos. Eu sempre à frente, apostando corrida com as sombras. Meu irmão vinha por último, e hoje penso que ele gostaria de aproveitar o tempo de outro modo que não daquele. Eu pedalava, e era a roda empurrando o chão e o chão empurrando a roda: acho que seria assim que a física explicaria aquele momento único na semana. E só saberia dessa física poética quase uma década depois.
A vida lá era rotineira. Era tão rotineira que eu não fazia ideia de que cresceria e faria outras coisas. De segunda a sexta eu acordava cedo pra aproveitar as ausências da casa. Eu assistia aos desenhos da televisão e reinventava suas histórias com os meus bonecos no chão. Perto do meio dia, minha mãe chegava do trabalho. E depois, ele. Eu sempre o assistia lavar as mãos quando chegava, parecia um mágico que dava a cor laranja escura à água no simples contato com suas mãos. O almoço já estava pronto, preparado pela Conceição. (Em outra época seria pela Felix, Maria ou pela Socorro.) Depois do almoço eu caminhava até a escola, para também a imergir na minha desvairada imaginação. De segunda a sexta eu fazia estas mesmas coisas e, por isso, até minha imaginação se tornava rotineira.
E todo sábado nós três pedalávamos. A vida lá era previsível. E mesmo os sábados sendo também previsíveis, eu queria fechar os olhos e enganar o tempo. Todo sábado nós três pedalávamos e minha mãe preparava o almoço. Pedalávamos sempre até o zoológico. Andar por aquele zoológico era assistir capivaras, antas e porcos-espinhos salpicarem o chão na sua frente. Ouvir uma infinidade de araras, de uma infinidade de cores, conversarem em repouso. Observar onças viverem discretamente a uma centena de metros definidos por obstáculos.
Não havia elefantes, girafas ou rinocerontes, mas pouco me importava, porque eu gostava das onças. E havia muitas onças. E só uma era onça-preta; adquirida do Zoo Buenos Aires. Preta como o infinito. Somente cerca de 6% das onças são melanísticas, e uma vivia lá. Eu a admirava por mais tempos do que todas as outras, pensando Porque ela se deixa aprisionar? Porque que ela aceita passivamente ser rotinizada?
 Às vezes até brincava de zoológico no quintal da minha casa, eu tinha vários bonecos de animais: elefantes, girafas, rinocerontes. Nenhum era o de uma onça preta como o infinito.
Nós três pedalávamos. Tínhamos que voltar para casa aos sábados. Nossos tênis eram iguais, de camurça preta e sola branca encardida pela terra laranja-escuro. Aqueles tênis faziam os círculos que moveram as bicicletas. O caminho que dava ao zoológico passava por um trecho de rodovia estadual onde quase nunca passavam carros. Chegávamos em casa perto do meio dia. Aos sábados ele não fazia a água incolor mudar para laranja-escuro e o almoço já estava pronto, preparado pela minha mãe dessa vez.
Os domingos também eram rotineiros. Não pedalávamos, mas percorríamos de carro as 13 milhas até uma das cidades vizinhas, Parauapeba, pra almoçar e fazer algumas compras. Quando voltávamos, eu jogava futebol sozinho na quadra do quarteirão de casa. Voltava para antes de escurecer. Perigo nenhum havia, só era assustador.
A semana seguinte seguia do mesmo jeito de sempre, exceto talvez pela minha aula de educação física, pois começara uma reforma nas quadras do colégio e tivemos que ir ao clube da cidade para ter as aulas. Sábado fomos nós três pedalar. Mais tarde eu vou jogar bola no quintal, usando a jaqueira como uma das traves, mas ainda estávamos no zoológico.
Dessa vez não vi a onça-preta, Onde será? Voltávamos, vínhamos pela rodovia estadual onde quase nunca passavam carros. Eu sempre à frente. Minha sombra ligeiramente em segundo lugar. Uma centena de metros a frente outra sombra que parecia que saía do chão. Eu usava uma camisa branca com estampas do Mickey que eu adorava, uma bermuda jeans e o tênis de camurça preto. A roda da bicicleta empurrou o chão mais um pouco, o chão empurrou a roda da bicicleta o mesmo pouco. Era a onça-preta da cor do infinito. Uma onça consegue perfurar o casco de uma tartaruga com uma única mordida. A roda já não empurrava mais o chão, o chão já não empurravamais a roda. Nós três não pedalávamos mais, ficamos imóveis – e minha sombra ainda em segundo lugar. Eu não podia evitar olhá-la nos olhos, e já não nos mexíamos antes mesmo d’ele gritar Não mexe, Não mexe! Não pedalávamos agora.
A onça-preta então começou a se movimentar, em diagonal, se afastando de nós três e da rodovia. Não dava mais para olhá-la nos olhos, mas eu continuava a vê-la se movimentar. A imagem do infinito se afastando é linda. Minha camiseta tinha mais suor do que em qualquer outro sábado. Ela entrou na mata e ele já mudava o comando Anda, anda! E mudava de posição também: vinha agora por último. Voltávamos, nós três pedalávamos. Agora, as rodas agrediam o chão até passarmos pelo muro da cidade, quando tudo foi silêncio. Voltamos para casa e nada falamos à minha mãe, que só deve ter estranhado mudarmos a nossa rotina dos sábados.
A verdade é que essa é só a minha verdade. Mas nós três pedalamos.

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